O que acontece quando mulheres escolhem estar umas pelas outras?
Em meio às pressões da existência feminina, os laços emergem como espaços de cuidado, autonomia e resistência

Como você se imagina envelhecendo? Para nós, mulheres, é comum que logo surja um imaginário específico: estar ao lado do cônjuge, sob os cuidados dos filhos, em um quintal aconchegante na tão sonhada — e suada — casa própria. Mas, quando questionada, a estudante de medicina Mariah descreve um cenário diferente: imagina-se, já na flor da idade, tomando café com as amigas e conversando sobre as mesmas coisas de sempre. Mariana, que faz parte desse grupo, completa que gostaria de acompanhar o surgimento das tão temidas "rugas", afinal, não temos nenhuma no grupo que seguiu a carreira de estética para realizar o "botox". Eu, que cresci junto dessas meninas, lembro da infância em que sonhava ser amiga das minhas amigas para sempre. Ainda não cheguei no "para sempre", mas continuo ao lado dessas mesmas parceiras de antes. E posso afirmar, com certeza, que eu faria de tudo para levá-las comigo até o fim da vida.

Esse desejo de continuidade nos laços atravessa o tempo, embora se manifeste de formas diferentes. Dona Cleide, avó de Mariana, é viúva aos 77 anos e relembra que na sua adolescência tinha várias amigas, mas à medida que foi envelhecendo se apegou muito à família. O que, claramente, não é de todo mau. Já aposentada, criou uma rede de apoio inspiradora entre as tantas mulheres da casa. Mas e se, a partir de agora, pensarmos em ampliar esse afeto para além dos vínculos familiares?

Quando o assunto é cuidado, dificilmente as mulheres conseguem expandir esses discursos afetivos entre si próprias. Para a socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich, fomos criadas em um contexto de amor romântico, amar o outro e, principalmente, os homens. Mas, não fomos criadas para distribuir esse amor de maneira igualitária com outras fontes de amor, como a própria amizade feminina.

Em Stranger in the Alps, Phoebe Bridgers dá voz às emoções de uma mulher jovem diante do mundo, revelando a vulnerabilidade como uma forma de resistência poderosa entre o feminino (Foto: reprodução/Dead Oceans)

De acordo com um estudo realizado pela Seattle Cancer Care Alliance, a Huntsman e a Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, um homem casado tem seis vezes mais probabilidade de se separar ou divorciar de sua esposa logo após um diagnóstico de doença grave do que uma mulher casada na mesma situação.

Os autores do estudo explicam que o motivo pelo qual os maridos abandonam as esposas doentes pode ser parcialmente justificado pela ausência de capacidade em assumir um papel de cuidado, em comparação às mulheres. Logo, uma mulher é mais predisposta a se comprometer com os cuidados de um cônjuge doente. A pesquisa conclui que o gênero feminino é um forte preditor de abandono de parceiro em caso de doença graves, além de que, em casos de separação, a qualidade de vida das parcerias foi negativamente afetada.

Essas informações se aplicam às histórias de Cintia e Marlene que disseram o “sim” quando foram questionadas: na saúde e na doença? Mas a resposta dos parceiros, na prática, não foi a mesma. Na conturbação do divórcio, enfrentaram o peso de criarem os filhos sozinhas, além das próprias dores do término, o que consequentemente afetou a saúde mental de cada uma delas. Marlene enfrentou a descoberta de não apenas um, mas cinco aneurismas cerebrais ao mesmo tempo que criava, sozinha, uma adolescente. Cintia, por sua vez, sofreu transtornos alimentares até se curar do processo de dependência emocional do ex-marido.

Esses fatos não soam nem um pouco distantes da realidade, é fácil encontrar esse tipo de discurso dentro de histórias de grandes mulheres. Mas ainda assim, existe aquela pulga atrás da orelha: por que é tão difícil para algumas mulheres saírem de relacionamentos que não trazem felicidade para si próprias? No livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, a psicóloga Valeska Zanello reflete sobre a ideia de que os homens são ensinados a amarem muitas coisas, se aventurarem em hobbies e distrações, enquanto as mulheres são ensinadas a amarem os homens.

Nem tão felizes para sempre

O contato com contos de fadas e histórias de princesas durante a infância podem ser grandes influenciadores dessa ficcionalidade nos relacionamentos. Para a psicóloga e fundadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Feminista, Lavínia Palma, quando somos mais novas, temos aquele modelo: “toda princesa precisa de um homem”. Muitas vezes, o amor sempre vai aparecer em primeiro lugar, e esse tipo de representação é muito mais eficaz em reforçar os estereótipos do que questioná-los.

“E viveram felizes para sempre” é a fórmula final para essas histórias, mas o que acontece depois disso? No amor romântico, o conceito dessa harmonia é uma idealização e até mesmo, um mito cultural que pode trazer consequências negativas para os vínculos afetivos. Afinal, essa busca pela perfeição leva a expectativas irreais e, muito possivelmente, decepções.

Desde cedo, somos apresentadas à ideia de que o amor romântico resolve tudo. Mas, fora dos contos de fadas, essa expectativa pode pesar mais do que libertar (Foto: reprodução/Pinterest)

Em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, o sociólogo Zygmunt Bauman diz que o que amamos é o estado, ou a esperança de sermos amados. De fato, queremos ser objetos dignos de amor e sermos reconhecidos como tais. A partir disso, o amor próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. É nessa lógica que reside um risco: quando o amor próprio depende do olhar do outro, torna-se vulnerável.

Se “somos amados” de maneira violenta e abusiva, temos uma ideia equivocada do que é o amor e utilizamos isso como verdade absoluta. Um dos principais desafios para quebrar esses paradigmas é, exatamente, a idealização do amor romântico. A internacionalista e mestra em História Global pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Manoela Veras, aponta-o atualmente como um instrumento de reprodução das violências normalizadas.

A diferença na forma com que os homens e as mulheres são ensinados a amar ajuda a manter estruturas desiguais nas relações. Como explica a comunicadora sobre História das Mulheres e Feminismo, Dara Medeiros, enquanto os homens crescem aprendendo que a esposa deve servi-los, as mulheres são educadas para colocar o parceiro no centro de suas vidas. Não é só no discurso: isso se reflete no cuidado com a casa, na responsabilidade emocional e na expectativa de abrir mão de si mesma em nome do outro. Nesse modelo, o amor deixa de ser construção mútua e passa a funcionar como um contrato silencioso, em que uma das partes ama, cuida e se doa — e a outra apenas recebe.

O fim da promessa romântica

Por séculos, a promessa do amor romântico serviu como roteiro de vida para as mulheres. Amar — de forma incondicional, sacrificada e idealizada — foi apresentado como um destino inevitável, a chave para a felicidade plena e o principal marcador de sucesso. Mas o que acontece quando essa promessa falha? Ou quando, com o passar dos anos, ela deixa de fazer sentido?

Entre mulheres que atravessam a maturidade, essa pergunta tem encontrado respostas cada vez mais lúcidas e libertadoras. O que não te contaram sobre o amor romântico é que ele não é o único tipo de amor possível. E, talvez, nem seja o mais importante.

Faiza começou a desconfiar disso aos poucos. Durante a juventude, entendia o mundo por lentes conturbadas. Aos 16, já enfrentava processos psiquiátricos. Aos 19, tornou-se mãe de Catarina — um presente, como ela diz hoje, mas recebido em meio ao caos. A filha cresceu sem a presença do pai, acolhendo a mãe em todas as suas fases, inclusive durante a dependência química. Foi só anos mais tarde, ao ingressar na "irmandade", como chama o grupo de apoio formado por mulheres em recuperação, que Faiza começou a reconstruir os vínculos que a sustentam até hoje.

Ali, entre iguais, ela passou a enxergar com clareza o que antes lhe escapava: o brilho da filha, o amor da própria mãe e a força da presença feminina. “Minha filha sempre teve uma luz própria, e eu não conseguia enxergar isso em mim. Hoje, depois da recuperação, ressignifiquei tudo”, conta. Ao aprofundar os laços com outras mulheres dentro da irmandade, ela passou a cuidar melhor de si, o que também refletiu em sua capacidade de cuidar das outras.

“Hoje eu me cuido melhor e posso fazer isso como mãe, como filha e como amiga. Posso dizer que contribuo para a solução, e não mais para o problema”,
conclui a mãe da Catarina e do Clebinho.

A história de Faiza revela o que muitas mulheres têm descoberto ao longo do tempo: a salvação contra a solidão não precisa vir do romance. Como aponta a psicanalista e autora do livro Para revolucionar o amor, Ingrid Gerolimich, o amor romântico ainda é visto como uma promessa de companhia, mas na prática, muitas mulheres seguem sobrecarregadas e emocionalmente sozinhas, mesmo dentro de relações estáveis.

Fato é que essa promessa de realização pessoal através do amor idealizado se revelou frequentemente uma armadilha. No século XX, com o avanço dos estudos feministas, diversas autoras passaram a questionar os impactos dessa narrativa sobre a vida das mulheres. A escritora bell hooks denuncia como o amor romântico tem sido utilizado para justificar práticas de dominação, controle emocional e apagamento da autonomia feminina. Segundo a autora, as mulheres foram socializadas para acreditar que sua principal missão é amar incondicionalmente, mesmo quando isso significa se anular em nome do outro.

Por isso, resgatar os laços entre mulheres e reconhecer sua potência é também um gesto político. É perceber que amar não precisa ser sinônimo de renúncia. É preciso estar atenta para que amar não signifique abrir mão de si mesma.

Laços que curam

E se, no lugar da ilusão do amor romântico, colocássemos algo mais sólido? A amizade feminina, como no caso da Faiza, surge como uma alternativa potente, não apenas como consolo, mas como possibilidade concreta de apoio mútuo.

Repensar o amor a partir de uma perspectiva feminina implica também resgatar formas de vínculo historicamente desvalorizadas. Para hooks, muitas mulheres são ensinadas desde a infância a não atribuir tanto valor às amizades quanto aos laços familiares ou conjugais. Ainda assim, é justamente nessas relações de amizade que muitas vivenciam, pela primeira vez, uma experiência de amor acolhedor e um senso real de comunidade.

“É preciso deslocar a ideia do feminino tradicionalmente reconhecido para a ideia de identidades femininas são diversas, complexas, humanas e atravessadas por outras formas de relação entre mulheres, que não se baseiam na reprodução de padrões de competitividade e que não medem o sucesso baseadas na equação de casamento e maternidade",
explora a psicóloga Julia Almeida.
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Entre a escuta, troca e presença, as amizades entre mulheres surgem como espaço de afeto genuíno e resistência ao ideal romântico (Foto: reprodução/Warner Bros)

E a ciência confirma esse impacto: uma pesquisa da Universidade da Califórnia (UCLA) revelou que, em momentos de estresse, mulheres tendem a recorrer às suas redes de apoio social com mais frequência do que os homens — um comportamento que, segundo os pesquisadores, contribui para a proteção da saúde física e mental e ajuda a explicar, inclusive, a maior expectativa de vida feminina no mundo. Enquanto homens reagem ao estresse com respostas de "lutar ou fugir", mulheres são mais propensas a “cuidar e fazer amizade”.

Esse efeito protetor das amizades ao longo da vida se torna ainda mais evidente com o passar dos anos. Um relatório publicado pela Psychology Today mostra que laços de amizade continuam exercendo um papel central no bem-estar de mulheres mais velhas, ajudando a mitigar a solidão e a depressão, embora raramente se fale disso com a mesma ênfase que se fala em alimentação ou exercícios físicos.

Em um mundo que frequentemente reduz as amizades femininas a meros passatempos, é urgente reconhecer seu verdadeiro valor: elas são fonte de saúde, apoio, resistência emocional — e amor, no sentido mais transformador da palavra.

Quando o príncipe não te salva, sobra pra sua fada madrinha

Se por um lado as amizades entre mulheres oferecem abrigo emocional, por outro elas também se tornam trincheiras diante de uma realidade dura: no Brasil, quase metade dos lares são chefiados por mulheres, que assumem não apenas o sustento financeiro, mas também os cuidados com a família. De acordo com esse estudo feito pelo Grupo Globo, 48,7% das mulheres são provedoras do lar atualmente. Em contrapartida, elas lideram o índice de desemprego no país: 14,9% contra 12% dos homens”.

O Censo de 2022 divulgado pelo IBGE, mostra que, em pelo menos dez estados, elas já ultrapassaram os homens como responsáveis pela unidade doméstica. Além de garantirem o sustento, muitas mulheres ainda acumulam sozinhas a responsabilidade pelos cuidados com a família.

Essa responsabilização excessiva não vem individualmente. O país segue registrando índices alarmantes. Em 2024, quase metade das mulheres sofreram algum tipo de violência e o causador, em sua grande maioria, são os parceiros íntimos.

Para a advogada e professora de Direito Constitucional na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Emanuella Denora, as pautas sobre violência contra a mulher seguem vivas na memória nacional, especialmente após mudanças significativas no campo legislativo. Ela destaca que a legislação de violência doméstica representa uma importante virada de chave, por não se restringir ao âmbito criminal. “Ela também abrange as esferas cível e administrativa, o que permite reconhecer diferentes formas de violência, como a patrimonial e a moral, a partir dos contextos em que as mulheres são mais vitimadas”, afirma.

Ao considerar essas diferentes esferas, a legislação permite reconhecer não apenas a violência física, mas também outras formas igualmente cruéis. Quando as mulheres entendem que ciúmes excessivos, violência psicológica, e comportamentos dominantes associados à figura do "machão" são sinais de amor, elas acabam internalizando essas manifestações como formas legítimas de afeto.

Denora afirma que o problema é que essas dinâmicas são muito mais complexas e profundas do que parecem à primeira vista. Elas não envolvem apenas uma questão de conduta individual, mas estão ligadas a uma estrutura maior de gênero, cultura e relações de poder. Isso torna ainda mais desafiador identificar e interromper esses ciclos de abuso, que se perpetuam ao longo do tempo e se intensificam, muitas vezes, sem que a mulher sequer perceba os sinais de que está sendo desrespeitada.

“Existem vários ciclos de violência. Alguns são praticados como uma forma de dominação, outros são responsivos, e há ainda ciclos motivados por diversas razões. E, no final, o pico dessa dinâmica é o feminicídio, que é quando tudo vai por água abaixo”,
afirma a advogada.

A mestra em Economia Política pela Ise e presidente da Toda Cidadã,organização que democratiza conhecimentos sobre política, sociedade e cidadania para mulheres”. Gabriela Toso, afirma que esses padrões não afetam apenas mulheres brancas e de classe média — quando falamos de mulheres negras, há um agravante.

“A sociedade não ensina que mulheres negras precisam de carinho. O imaginário coletivo as coloca sempre como guerreiras, mães que cuidam de todos, fortes o tempo todo”,
analisa a ativista.

Essa é a realidade de mulheres que, mesmo sendo a base financeira e emocional da casa, seguem vulneráveis à violência dentro de suas próprias famílias, muitas vezes perpassadas por parceiros que deveriam ser fonte de apoio, e não de ameaça.

“Relacionamento abusivo nada mais é do que outro nome para violência doméstica. Precisamos aprender a identificá-lo, a entender o que é um comportamento pontual e o que já configura um padrão, o que pode mudar e o que não tem solução, quando é hora de tentar e quando é hora de ir embora. Porque a mulher é ensinada a suportar tudo. Aquela frase dos votos de casamento — "o amor tudo suporta" —, na prática, vira "a mulher tudo suporta". Mas até quando? Os índices de violência doméstica e feminicídio no Brasil são altíssimos. E as pesquisas mostram que muitas mulheres não se sentem em perigo dentro dessas relações. Isso é resultado da manipulação constante, elas perdem a capacidade de reconhecer que estão em risco. Essas questões de gênero, raça e classe estão presentes em tudo”,
pondera Toso.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Ipec, o apoio de familiares e amigos é apontado por 58% dos brasileiros como o principal impulso para que mulheres consigam romper relações violentas. Entre aquelas que conhecem alguém que sofreu agressão, 63% disseram que a primeira atitude foi conversar com a vítima. As mulheres também se mostram mais ativas nesses casos: 55% incentivaram a denúncia à polícia — número superior ao dos homens, que foi de 47%. Além disso, elas são as que mais indicam ajuda especializada.

Nesse contexto, os laços femininos aparecem não só como refúgio, mas como redes de sobrevivência. Quando o Estado falha, quando os parceiros violentam ou abandonam, são outras mulheres — amigas, vizinhas, irmãs — que muitas vezes garantem acolhimento, escuta e ajuda concreta. Não é exagero dizer que esses vínculos salvam vidas.

Dar os laços é uma revolução

São nesses vínculos que também nasce uma linguagem própria construída na escuta, na troca e na presença umas das outras. Como nos lembra a escritora e ativista feminina Audre Lorde, transformar o silêncio em linguagem e ação é um ato de sobrevivência. A historiadora Manoela Veras analisa que talvez seja justamente isso que temos feito ao longo do tempo: romper com o silêncio imposto, buscar palavras que nos representem, criar sentidos que coloquem nossas experiências no centro. Afinal, essa construção coletiva só foi possível porque estivemos com outras mulheres, fomos abrigo e também tradução umas das outras. Ao compartilharmos nossas dores e afetos, fomos capazes de nomear o que antes nos atravessava em silêncio.

Para mulheres trans, por exemplo, transformar o silêncio em linguagem é ainda mais desafiador. A psicóloga e mestra em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Stella Spinillo, analisa que, além de conviverem com o sofrimento imposto pela estrutura machista, as mulheres trans ainda precisam, antes de tudo, afirmar sua identidade como legítima.

“Os serviços públicos de saúde que oferecem ajuda psicológica não são numerosos, apesar de haver, sim, profissionais e serviços muito capacitados para isso. Há muitos relatos de mulheres trans que não conseguem aderir a tratamentos psicológicos por não haver profissionais capacitados para ouvir as questões que essa população traz e, quando esses profissionais existem, não são tantos assim,”
afirma Spinillo.

Assim, as redes de afeto e apoio tornam-se, para elas, não apenas importantes, mas vitais.

Especialmente nos ambientes de trabalho, esses laços ganham novas camadas de significado. As amizades entre mulheres vão além do cotidiano, se tornam formas de enfrentamento em espaços ainda marcados por desigualdades e cobranças desproporcionais. Segundo uma pesquisa da Carrier.io, 57% das mulheres apontam o apoio emocional como o principal benefício de cultivar esses vínculos no trabalho. Entre os homens, esse índice cai para 43%.

apesar disso, é impossível ignorar que a rivalidade a rivalidade entre mulheres nesses lugares também existe, e muitas vezes é alimentada por estruturas que não oferecem espaço suficiente para sermos inteiras. Quando há poucas vagas para lideranças femininas, poucas oportunidades de reconhecimento ou ambientes hostis à escuta e à colaboração, as mulheres são empurradas para uma lógica de disputa. Não porque são naturalmente competitivas, mas porque as ensinaram que só há lugar para uma.

“A falta de representatividade, por si só, talvez não seja o que impulsiona diretamente a rivalidade feminina, mas a consequência dela é clara: quando só há espaço para uma mulher, torna-se difícil construir uma rede de apoio que permita que mais de uma chegue lá”,
aponta Toso.

Segundo dados divulgados pelo IBGE em 2022, as mulheres recebem salários inferiores aos dos homens em 82% das principais áreas de atuação do Brasil. Em contrapartida, os dados mostram que elas são maioria nas taxas de conclusão de escolaridade e ensino superior

Mesmo diante dessas desigualdades, a força dos laços femininos permanece como um dos maiores aliados na história das mulheres. As redes de apoio, construídas com solidariedade, tornam-se fundamentais para enfrentarmos um sistema que ainda insiste em nos dividir.

“Em algum momento, não sei qual, me tornei sensível ao fato de que ser mulher é estar em uma classe social à parte e que, por mais que eu possa cair nas armadilhas sexistas — que muitas vezes alteram nossa autoestima e nosso olhar para nós mesmas — nada anula o fato de que ao meu lado, na prateleira, tem outra mulher. Compreendi que o problema não é que a outra é melhor que eu, mas sim o que diabos estamos fazendo empilhadas aqui? Por que precisamos ser escolhidas por homens? A partir daí, consegui perceber todas as diferenças entre mim e as mulheres ao meu redor como potencialidades e não problemas. O reconhecimento da multiplicidade do que significa ser mulher, além do cabelo, das unhas, dos vestidos e saltos, é central para que sejamos sensíveis nas relações com outras mulheres”,
aponta Almeida.

Cada laço criado, cada espaço de escuta, cada gesto de apoio é uma resistência contra um sistema que tenta nos silenciar e nos fragmentar. É através dessas conexões que, mesmo em um ambiente de desigualdade, conseguimos nos fortalecer, crescer e avançar. Como afirma Spinillo, quando uma mulher defende os direitos de outra, está, ao mesmo tempo, defendendo os seus próprios.

Segundo o estudo “Just being and being bad: Female friendship as a refuge in neoliberal times”, os relacionamentos criados entre nós coexistem com a lógica neoliberal, mas também configuram uma resistência sutil ao sistema. Em meio às exigências constantes de produtividade, resiliência e autogestão impostas às mulheres, as amizades femininas oferecem alívio. São nesses vínculos que o feminino encontra um espaço seguro para descansar do trabalho, das responsabilidades da maternidade e das inúmeras pressões sociais, desafiando o ideal normativo de docilidade ao permitir que sejamos imperfeitas. Ou melhor, em outras palavras, humanas.

Entre mães, filhas, avós e amigas, um outro jeito de amar se revela: feito de presença, cuidado e laços que atravessam o tempo (Foto: reprodução/Pinterest)

Ao voltar à pergunta inicial — como você se imagina envelhecendo? — a resposta talvez tenha partido de um imaginário doce e até ingênuo, mas a conclusão é apenas uma, queremos envelhecer ao lado de quem amamos, certo? Repensar o amor a partir da experiência feminina, o que se encontra não é a ausência de afeto, mas a potência de novas formas de amar [mais livres, mais plurais e mais justas!].

Um amor que não se limita ao par romântico, que não exige perfeição, e muito menos que nos anulemos. Ele se espalha nos pequenos gestos entre amigas, na escuta sem julgamento, no apoio silencioso e na cumplicidade.

Porque, se for para dar um nó, que ele não seja de prisão, mas de laço: daqueles que seguram firme, mas não apertam. E, entre tantas promessas, talvez essa seja a única que podemos e devemos manter até o fim: estar ali, uma pela outra.